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Inflação baixa nos EUA atrasa a alta de juro do Federal Reserve

02/09/2015

Efeito Global. Embora parte do impacto da política monetária americana esteja precificada nas principais moedas internacionais, os países emergentes podem sofrer com saída do investidor

A inflação baixa nos Estados Unidos - 0,17% nos últimos 12 meses - poderá permitir o adiamento da elevação da taxa básica de juros americana para dezembro de 2015, e poupar, por enquanto, uma fuga maior de recursos dos países emergentes, entre eles, o Brasil.
A taxa básica de juros americana, a Federal Funds Rate, oscila entre 0% ao ano e 0,25% ao ano desde 16 de dezembro de 2008. Antes da crise econômica global de 2008 estava em 4,5% ao ano em 31 de outubro de 2007.
No ano passado, devido à expectativa de aumento dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), o fluxo de capital para os países emergentes havia recuado 20% segundo dados da IIF (sigla em inglês para Instituto Internacional de Finanças) para o montante de US$ 1,06 trilhão, ante US$ 1,35 trilhão em 2013.
Entre os indicadores globais disponíveis do ano de 2015, observa-se uma queda de 18% no levantamento de capital (captação líquida) para fundos de investimentos em participações de capital em mercados emergentes no primeiro semestre, segundo boletim da EMPEA, a associação de private equity para mercados emergentes. .
Na projeção do Banco Central brasileiro, nosso país deverá receber US$ 80 bilhões de investimentos externos em 2015, mesmo assim uma queda de 17,4% em relação aos US$ 96,9 bilhões recebidos no ano passado.
Mas, de acordo com dados do último balanço de pagamentos, no período de janeiro a julho de 2015, o investimento direto externo em participações de capital no Brasil ficou em US$ 25,82 bilhões, queda de 18,5% em relação a igual período de 2014.
Ainda entre os números oficiais, também se observa uma queda do investimento exterior em títulos de renda fixa (públicos e privados), embora o fluxo para a Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa esteja positivo até o final de agosto.
Segundo especialistas consultados pelo DCI, nosso País sofre mais por causa de seus problemas domésticos (déficit nas contas públicas e recessão), do que por fatores externos como a desaceleração da economia chinesa ou do retorno de capitais aos Estados Unidos.
"Nas últimas semanas se vê uma saída maior de capital de títulos públicos locais por causa da possibilidade de perda do grau de investimento e uma saída menor da Bolsa de Valores, mas esse fluxo para ações permanece positivo no ano", diz o sócio e diretor da corretora Easynvest, Marcio Cardoso.
Mesmo assim, a questão da política monetária americana é considerada muito importante para determinar a escalada do dólar no Brasil, e os efeitos disso na alta inflação doméstica. Ontem, o valor da moeda americana subiu 1,60% para R$ 3,69. No ano até ontem, essa desvalorização do real alcança 37,1%.
"A conexão mais clara da expectativa de aumento dos juros nos Estados Unidos está na desvalorização das moedas dos países emergentes, mas no Brasil essa depreciação do real foi mais acentuada por causa de problemas internos", afirmou o professor de economia do Mackenzie, Pedro Raffy Vartanian.
Nossos problemas, segundo o professor são bem conhecidos: inflação alta (9,56% nos últimos doze meses); recessão; déficit nas contas públicas com o risco da perda do grau de investimento, a nota de bom pagador do Brasil; e as incertezas políticas e na confiança da economia doméstica.
"A recessão se aprofunda e o desemprego aumenta. A expectativa é que o Comitê de Política Monetária [Copom do Banco Central brasileiro] mantenha a taxa de juros Selic em 14,25% ao ano, pelo fato que nossa inflação alta começa a caminhar para o centro da meta [4,5% ao ano] em 2016", apontou o professor.
É um cenário bem diferente do vivido pelos Estados Unidos. "Com a queda do preço do petróleo e de outras commodities, a inflação americana está próxima de zero por lá. A taxa de desemprego está em queda e a economia está crescendo", comparou.
De fato, o índice de preços ao consumidor (IPC) dos Estados Unidos subiu 0,17% nos últimos 12 meses até julho. Esse movimento de inflação baixa se repete na zona do euro (0,23%), na Grã-Bretanha (0,16%), e com mínima na Espanha (0,07%). "Entre os países emergentes, somente Brasil, Argentina, Venezuela e Turquia tem inflação alta", diz.
Na visão do diretor executivo de estudos e pesquisas econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, o Federal Reserve deverá optar por uma elevação gradativa da taxa.
"Será um processo muito lento, talvez não aconteça agora em setembro por causa da instabilidade na China, mas a economia deles está crescendo, e em algum momento eles devem aumentar os juros. A tendência é que o investidor internacional tire o dinheiro dos emergentes para investir lá", aponta Oliveira. Mas o diretor da Anefac não acredita em altas elevadas da taxa americana. "Eles vão subir 0,25 ponto e avaliar o comportamento da economia. Vai demorar muito tempo para voltar ao patamar do período pré-crise", completou.
Vartanian também diz que a América Latina, devido a proximidade com o vizinho deverá sofrer bastante com o aumento da taxa americana. "Do ponto de vista histórico, o investidor prefere retornar seus recursos para os Estados Unidos", alerta.
Selic em manutenção
No Brasil, a expectativa do mercado é que o Copom mantenha a Selic em 14,25% ao ano. "A economia brasileira está mais do que debilitada, não tem necessidade de aumentar a taxa de juros. O próprio BC vê uma inflação mais baixa no próximo ano, de 5,4%. Irá manter e esperar um tempo", diz Marcio Cardoso, diretor da corretora Easynvest.
"Mesmo com a manutenção da taxa, aplicações em renda fixa e fundos de investimento ganham mais atratividade", orienta ao investidor local, o diretor da Anefac, Miguel de Oliveira.

Fonte: DCI