Mundo

Crise acionária na China afeta a Bolsa brasileira e valoriza dólar americano

27/08/2015

SulAmérica Investimentos vê preocupação global com a economia chinesa e desaconselha renda variável no momento principalmente em papéis dos setores de mineração, siderurgia e petróleo

A crise acionária chinesa seguirá afetando a Bolsa brasileira e influenciando na desvalorização do real em relação ao dólar. Ontem, a moeda americana à vista subiu 0,93% e fechou a R$ 3,592 no balcão, também impactada pela crise política em Brasília.
Na sequência da trágica segunda-feira passada nos mercados globais, a Bolsa de Xangai recuou mais 7,63%, e o índice CSI 300 de companhias chinesas listadas em Xangai e na Bolsa de Shenzen recuaram mais 7,10% ontem.
Aqui, o principal índice de ações da Bolsa de Valores de São Paulo (o Ibovespa) recuperou 0,47% ontem após um anúncio da queda de juros pelo governo chinês, mas o índice ainda acumula perdas de 10,92% no ano, no menor patamar (44.544 pontos) desde a crise mundial de 2009.
Segundo especialistas, o crescimento do produto interno bruto (PIB) brasileiro é afetado diretamente pelo desaquecimento da economia chinesa. "É um momento bastante turbulento com forte aversão ao risco na China. Se tivermos uma crise mais séria por lá esse movimento pode contribuir para derrubar a economia global", afirma o economista-chefe da gestora SulAmérica Investimentos, Newton Rosa.
Segundo ele, as perdas aos investidores, principalmente pessoas físicas, nas bolsas chinesas já superam US$ 250 bilhões. "Se a situação na China se agravar podemos ter um quadro de fraqueza da economia mundial", ressaltou Rosa sobre os riscos.
Diante desse possível cenário, o vice-presidente de investimentos da SulAmérica, Marcelo Mello, diz que o atual momento macroeconômico é desfavorável para o segmento de renda variável, ou seja, para o investimentos em ações no mercado brasileiro.
"Não dá para falar que a bolsa brasileira está barata, mesmo com o preço em dólar da Bovespa bastante depreciado aos olhos do investidor estrangeiro", comparou o executivo.
Mello ponderou que as dúvidas sobre o crescimento chinês levam a um novo ajuste para baixo dos preços das commodities. O valor do minério de ferro já havia recuado mais de 25% no ano, e a cotação do petróleo, mais de 35% de queda em 2015. Não por acaso, os papéis da Petrobras, Vale e siderúrgicas são os que sofrem com o efeito da China.
"O câmbio até pode ser um gatilho para a bolsa brasileira, pode ter uma oportunidade mais à frente, não agora. Mas isso tem ficar no radar dos investidores", apontou Mello. Nos últimos 12 meses até ontem, a cotação do dólar avançou cerca de 58%, o equivalente a um processo de maxidesvalorização do real.
Ele explicou que além da questão chinesa há outros riscos na renda variável como a sinalização do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de aumentar os juros nos Estados Unidos que irá tirar liquidez dos mercados de países emergentes, e uma possível perda do conceito de grau de investimento (nota de bom pagador) atribuído ao Brasil.
"Já estamos pagando pelo risco especulativo, o estrangeiro só está pedindo mais prêmio [ganhos pelo risco de investir no Brasil], ainda não tem uma saída mais significativa [de recursos]. Mas pode piorar um pouco mais antes de começar a melhorar", afirma.
Ao se considerar todos esses fatores de risco, Mello diz que o cenário atual é benéfico para algumas empresas exportadoras listadas em Bolsa. "Subalocado em siderurgia, minério e petróleo, e sobrealocado em serviços financeiros, consumo e papel e celulose", destacou.
Refinanciamento privado
O vice-presidente da SulAmérica também lembrou que as empresas brasileiras que emitem debêntures podem reaquecer o mercado de capitais no horizonte próximo. "Há uma necessidade de rolagem de R$ 40 bilhões de dívida corporativa nos próximos doze meses", identificou Mello.
Como expectativas para o segmento de crédito privado, o executivo considerou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) terá menos recursos do Tesouro para o financiamento empresarial. "Isso fomenta emissões de debêntures, principalmente de infraestrutura", aponta.
Mas por outro ângulo, Mello ainda vê risco político e continuidade do desdobramento da Operação Lava-Jato, investigada pela Polícia Federal. "Dowgrades [rebaixamento de notas] de construtoras com problemas de alavancagem [endividamento descasado com receitas] podem trazer volatilidade para cotas de fundos de crédito privado. Estamos sendo mais seletivos na análise de crédito. Casos como da Sete Brasil e da OAS [citadas na Lava Jato] fecham janelas", disse.


Fonte: DCI